Nas últimas semanas, testemunhamos, atônitos, uma sequência de declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro, entre elas a negação da fome no Brasil, a minimização da preocupação com a preservação do meio ambiente, a agressão a jornalistas e ao preceito constitucional da liberdade de imprensa, o desrespeito com a família de um desaparecido político na ditadura, só para citar alguns. Em comum, todas as falas têm a inobservância da postura esperada de um presidente da República e o desprezo pelos avanços conquistados pelo conhecimento da humanidade. Fatores que por si só já são preocupantes. Mas há um risco maior nessas falas, o de que, atordoada pelo bombardeio de insanidades, a sociedade se torne letárgica e acabe normalizando o que é indecoroso e inaceitável.

De fato ninguém pode alegar que foi enganado pelo presidente, pois suas falas atuais refletem fielmente o pensamento apresentado por ele durante a campanha. Mas muitos votaram na ilusão de que, uma vez empossado presidente da República, ele se adequaria ao cargo e seria contido naturalmente pela necessidade de governar.

Isso não aconteceu. Em sete meses, o governo nunca deixou de se ver às voltas com polêmicas tolas e com a aparente falta de um projeto estruturante para o Brasil. Guiado sempre por uma crença pessoal, o presidente conduz o país como se fosse um negócio familiar. E, enquanto trava batalhas contra moinhos de vento comportamentais nas redes sociais e pela imprensa, age na prática para desarticular todas as políticas públicas implantadas, numa clássica atitude da velha política, aquela que a população tanto condenou, ao não manter o que está bom só por ter sido feito por governos anteriores.

O sistema de assistência social que tantos avanços trouxe para as populações mais desassistida, está à beira do colapso; as universidades estão paralisando; a Petrobras que acabou de ter um lucro gigantesco está para ser privatizada; o desmatamento avança; e os trabalhadores perdem direitos, sem que isso gere riqueza e crescimento para o Brasil. Desmonta o país, sem oferecer um plano para a remotagem.

E vai mais além, coloca em risco a democracia e a paz coletiva, ao tentar estabelecer um padrão de discurso radical, que dialoga com seu nincho eleitoral, mas que não reflete o pensamento coletivo.

O presidente vence o debate nas redes sociais, onde robôs e militantes organizados fazem barulho e impõem um discurso de ódio frente a uma maioria silenciosa, que não se dispõe a enfrentar a fúria maldosa contra os que ousam contestar os desmandos da ultradireita.

Mas é preciso ler as entrelinhas do mundo não virtual, onde as pesquisas e contato pessoal mostram que a grande maioria não concorda com o que vem sendo dito e feito e espera uma solução tranqüila, respeitosa e técnica para a retomada do crescimento do país.

Não podemos nos deixar vencer pela letargia. No Congresso Nacional, nas redes sociais, nas ruas, em nossas casas, temos que manter a nossa capacidade de nos indignar e de cobrar respostas. Se não temos um líder nacional, façamos cada um a nossa parte na reconciliação de todos os brasileiros em prol do Brasil. Afinal, salvadores da pátria existem sim, e somos cada um de nós.

Weverton, senador e líder do PDT no Senado.